A FOTO


2013-02-18

O BEIRÃO em Viseu, no Solar do Vinho do Dão

O BEIRÃO é, como muitos já sabem, o nosso amigo José Gomes de Pina, co-autor do livro A FOTO que nesta 6ª feira, 15 de Fevereiro, de 2013 teve o seu lançamento em Viseu, nas instalações do Solar do Vinho do Dão. São dele as palavras que se seguem e então nos ofereceu, em representação dos autores, na cerimónia da apresentação do livro.   



Meus Caros Amigos
 
Em nome dos oito autores do livro “A FOTO e o Reencontro Meio Século Depois”, cabe-me, aqui em Viseu, na minha terra natal, o que me enche de orgulho e grande alegria, saudar todos os presentes, onde reconheço tantos amigos, colegas do Liceu e familiares, e dar-vos as boas-vindas nesta sessão de apresentação e divulgação do nosso livro, à semelhança, aliás, do que o Raimundo Narciso, a Teresa Tito de Morais e o Mário Lino já fizeram nas sessões realizadas anteriormente.
O livro foi editado em Junho de 2012 e a sessão de lançamento realizou-se em 11 de Junho no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa, contando com as intervenções do Dr. Jorge Sampaio e do Reitor, Prof. Dr. Sampaio da Nóvoa.
A apresentação em Coimbra foi feita no dia 19 de Novembro, com a participação de Manuel Alegre e do Prof. Dr. José Manuel Pureza e no Porto, no dia 30, com intervenções do Dr. José Ilídio Ribeiro e do Prof. Dr. Augusto Santos Silva.
Agradecemos à Comissão Vitivinícola Regional do Vinho do Dão e ao seu Presidente Dr. Arlindo Cunha a disponibilidade e o apoio manifestados com a cedência do Solar do Vinho do Dão, situado no Parque do Fontelo, incluindo um Dão de Honra, a fazer jus ao vinho que tem levado Viseu e a sua região por esse mundo fora. Uma palavra de simpatia para a Dr.ª Graça Silva e à Dr.ª Rita Barros pela sua eficiente contribuição e empenho inexcedível na preparação desta sessão.
Renovar os nossos agradecimentos à Editora Âncora e ao Dr. António Baptista Lopes que desde o primeiro contacto nos acolheu com grande entusiasmo, incentivando a conclusão do livro e permitindo, com a sua publicação, a concretização do nosso projecto.
Aproveito também para agradecer ao Jornal do Centro, de quem sou, aliás, leitor habitual on-line, e a alguns blogues, como é o caso do Olho de Gato, O Viseu, Tribuna de Viseu e do Indo eu, Indo eu…, que além do VSB, também divulgaram o nosso convite. 

A apresentação do livro nesta sessão vai ser feita pelo Coronel Fernando Figueiredo e pelo Prof. Dr. António Correia de Campos, também eles ligados por fortes laços a Viseu e a quem os autores manifestam, desde já, o seu muito apreço e agradecimento.

Só acabei por conhecer pessoalmente o Coronel Fernando Figueiredo há relativamente pouco tempo, quando, finalmente, nos pudemos encontrar em Lisboa, após anos de contactos frequentes através do Viseu Senhora da Beira, em minha opinião, o blogue de referência em Viseu.
O autor propunha-se abrir “um olhar crítico, independente e exigente sobre as terras e gentes da região de Viriato” e, de facto o blogue VSB veio a constituir uma autentica pedrada no charco do marasmo da vida local, numa cidade do interior do país, tradicionalmente conservadora.
Tendo feito inicialmente comentários esporádicos noutros blogues de Viseu, acabei por encontrar neste blogue, campo para uma intervenção mais frequente, pelo que, quando comemorou os oito anos de existência, enviei este comentário:
“Meu caro Bazookas (durante muito tempo o autor do blogue, que se dava a conhecer por este pseudónimo, designando cada comentário por uma “bazookada”, constituía uma incógnita quanto à sua verdadeira identidade, desvendada somente, há cerca de três anos, quando este prestigiado militar o pôde legalmente fazer, após a sua passagem à reserva):
Não me tinha dado conta do tempo que já passou, afinal tanta água que foi correndo por baixo das pontes do Pavia... No meu primeiro comentário feito no seu blogue, em Março de 2005, dizia eu ao meu amigo:
...Realmente a minhas felicitações vão para quem teve a iniciativa de abrir um espaço onde, de certo modo, se vai expondo e provocando, julgo eu na pretensão de estimular o seu concidadão a discutir questões mais sérias e algumas outras só de simples actualidade. Mas também, e isso tocou-me, pelo seu demonstrado amor a Viseu, consciente e interventivo.
E aludindo à minha crescente intervenção no blogue, justificava-me, dizendo-lhe:
"...pois entendo ser também meu dever contribuir de forma honesta e interessada para o debate cívico. E o seu blogue, na maioria dos postes apresentados, cumpre bem esse objectivo, para além do debate se centrar nos grandes problemas de Viseu e assim podermos interagir com os nossos conterrâneos, na reflexão conjunta sobre algumas realidades, de que cada um, claro, terá a sua própria visão. Como pode ver, passados estes “breves” oito anos, o VSB cá está cumprindo o seu papel, alargando os horizontes do debate local, tradicionalmente fechado e pobre, trazendo à blogosfera local uma dinâmica diferente, mexendo com as pessoas, incomodando-as, desinibindo o diálogo, afoitando-as, dando-lhes oportunidade para uma abertura de espírito a que não estavam habituadas.
E isto o meu amigo foi fazendo, à custa de muito suor, por certo, que estas coisas não nascem feitas! Que grande “bazookada” o meu amigo deu nesta cidade...Como viseense, vivendo longe, o meu muito obrigado por tudo isto e que mantenha o ânimo e o empenho de sempre.
Um grande abraço do Beirão (é este o pseudónimo que utilizo)".

Ora quando as pessoas fazem amizade pelo que pensam e escrevem, concretizando na “blogosfera” esse entendimento, mesmo não se conhecendo pessoalmente durante tanto tempo, que mais posso dizer?... Direi somente que foram estas as razões que dei aos meus amigos autores para formularmos o convite ao Fernando Figueiredo, que eles não conheciam, para apresentar o nosso livro em Viseu, conjuntamente com o António Correia de Campos.
 
O Coronel de Infantaria na Reserva Fernando Figueiredo é licenciado pela Academia Militar com o Curso de Ciências Sócio Militares. Possui ainda vários cursos e estágios e uma pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos. Ao longo da sua carreira prestou serviço em diversas Unidades e Estabelecimentos do Exército, tendo desempenhado nos últimos anos, entre outras, as funções de Chefe de Repartição da Divisão de Pessoal do Estado Maior do Exército, de 2.º Comandante do RI 14, em Viseu e de Comandante do RI 3, em Beja.
Cumpriu missões internacionais, ao serviço da ONU, em Timor-Leste, como Comandante do 2.º BI/BLI e ao serviço da NATO, no Iraque, como National C2 Advisor no Centro de Operações Nacional, junto do 1º Ministro Iraquiano.
No foro civil, foi membro do Centro Distrital de Operações de Protecção Civil de Viseu e Guarda e do Núcleo Distrital do Projecto Vida de Viseu, Presidente e Fundador do Clube de Orientação de Viseu e membro dos Corpos Sociais da Federação de Andebol de Portugal. Formador em diversos cursos do CFP de Viseu, conferencista em diversas acções do Ensino Superior Universitário, é autor do blogue Viseu Senhora da Beira e colaborador regular do Jornal do Centro.
 
Concluo, lendo um excerto que retirei de um poste recente do Fernando no VSB, por certo um desabafo seu, por algum paralelo com atitudes que, noutros tempos e noutro contexto, também os autores da FOTO tiveram de tomar:
Dizia ele… “recordar que cabe às oposições, ontem como hoje, escrutinar o poder. Não há oposição sem escolher o “lado”. Mais do que ser de um partido, é preciso “tomar partido”!
"…O cidadão, o viseense, deseja saber mais, participar mais e avaliar por si se, de facto, as diferenças económicas e sociais estão diminuindo ou se, pelo contrário, quem nos governa apenas se governa a si próprio e aos seus!
Entretanto, sem uma oposição capaz de desmistificar tudo o que seja mera justificação publicitária do poder e de chamar a atenção para os valores fundamentais da sociedade democrática, só poderão ocorrer mudanças nas piores condições, isto é, quando o desespero das pessoas se transformar em coragem e acabar por incendiar este palheiro podre da partidocracia.
No mundo contemporâneo este caminho do escrutínio do poder começa finalmente a despertar na sociedade, através dos blogues, twitters e redes sociais, enfim, envolvendo um processo global.
E as oposições políticas, se nada tiverem a ver com as múltiplas demandas do quotidiano, como arranjarão forças para ganhar a sociedade? Não ganham, como é lógico, mas obrigam um coronel na reserva a ser activo na oposição… para mal dos meus pecados… "
 
O segundo apresentador do nosso Livro é o Prof. Dr. António Correia de Campos, ilustre viseense, meu particular amigo desde os tempos dos bancos da escola e do liceu, figura pública mais que reconhecida e que nos tem entrado frequentemente em casa, através da sua intervenção cívica, quer como ministro, deputado ou como comentador politico em muitos e interessantes debates televisivos.
Reconhecer-lhe as suas grandes qualidades humanas, de cidadão exemplar, profissional emérito, politico interventivo, não virando a cara na luta pelos seus princípios e ideais, amigo do seu amigo e ainda por cima beirão como eu, é para mim uma dupla satisfação e orgulho vê-lo aqui como apresentador do nosso livro.
 
Não posso também de deixar de vos ler o email que então dirigiu a mim e ao Mário Lino, a propósito da leitura que tinha acabado de fazer do livro A FOTO:
"Meus caros Zé Gomes de Pina e Mário Lino,  
Li o vosso livro integralmente, numa viagem a Chipre. Gostei imenso e por várias razões:
A proximidade com os meus sonhos, anseios e realizações, muito semelhantes aos vossos, naquelas idades, pelo menos, e creio que também agora.
A nossa origem social muito próxima: filhos de professores do ensino primário, de sargento e de pequeno comerciante, afinal a típica classe média em ascensão, na época.
A variedade de experiências de vida e a franqueza quase ingénua com que todos se desvendaram.
O sentido de fraternidade que perdura ainda nas vossas relações actuais.
Tinha o livro em cima da minha mesa quando tive um encontro de trabalho com uma técnica da nossa Representação Permanente que à saída me confessou ser filha do Eng. Rui Martins, também constante da foto, o que prolonga a rede para as gerações seguintes.
A qualidade literária da escrita, que atinge tons novelescos nos depoimentos do Letria e do Narciso, mantendo todos um alto nível, mesmo quando se preocuparam sobretudo com a descrição dos contextos.
Finalmente, a ideia de que a nossa juventude tinha causas e valores.
Como vedes, muitos elementos justificam o mérito da vossa iniciativa. Tenho pena de não conseguir inserir-me em uma semelhante.
Parabéns a todos e todas com natural permissão de circularem esta mensagem a quem entenderem. E obrigado ao Zé Pina pelo livro e dedicatória.
Abraço amigo / António Correia de Campos".

O António, filho varão do Professor David Campos (que felizmente já ultrapassou o centenário, continuando rijo e a tratar ainda da sua quinta em Figueiró), fez a sua instrução primária e grande parte do liceu em Viseu, tendo ido para Moçambique, no início do nosso sexto ano do liceu (1957), acompanhando a deslocação do seu agregado familiar (mas isso não impediu, quando comemorámos, em 2009, os 50 anos do nosso curso de finalistas do Liceu de Viseu (1952-1959), que estivesse presente, com grande satisfação, como um dos nossos, como pode ser testemunhado pelos muitos colegas aqui presentes).
Regressado à Metrópole, enquanto estudante universitário, empenhou-se activamente no movimento associativo estudantil, tendo sido membro da Direcção da Associação Académica da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, donde foi expulso em 1962, na sequencia da crise académica e do processo da greve da fome. Transitou para a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, tendo chegado a ser eleito (em 1963) Presidente da Associação Académica, cargo que no entanto não viria a ser oficialmente homologado pelas autoridades académicas.
Licenciou-se em Direito, tendo feito uma especialização como Administrador Hospitalar na Escola de Rennes, em França (1969), um mestrado em Saúde Pública na Universidade de John Hopkins, nos EUA (1978) e o Doutoramento em Saúde Pública pela  Universidade Nova de Lisboa (1982).
Em 1975 foi escolhido para integrar o V Governo Provisório, desempenhando funções de Secretário de Estado do Abastecimento num período muito curto e em 1979 como Secretário de Estado da Saúde do V Governo Constitucional.
Aderiu em 1984 ao Partido Socialista, pelo qual foi eleito deputado à Assembleia da República em 1991, tendo presidido à Comissão do Livro Branco da Segurança Social entre 1997 e 1998.
Em 2001, foi nomeado Ministro da Saúde, por iniciativa do primeiro-ministro António Guterres, abandonando então o cargo de Presidente do Instituto Nacional de Administração, que ocupava desde Janeiro de 1997. Entre 2000 e 2001, foi Presidente do Conselho Científico do Instituto Europeu de Administração Publica, em Maastricht, na Holanda.
Após a demissão do governo, em Abril de 2002, Correia de Campos foi nomeado Presidente do Conselho Científico da Escola Nacional de Saúde Publica, da Universidade Nova de Lisboa, onde já era professor catedrático, tendo proferido a sua ultima lição em 13 de Abril de 2012.
De Março de 2005 a Janeiro de 2008 integrou o governo de José Sócrates, à frente do Ministério da Saúde. Presentemente é deputado ao Parlamento Europeu (desde Junho de 2009).
Especialista em Saúde, nomeadamente na ligação desta área com a Economia, Segurança Social e Administração Pública, é autor de vários livros e dezenas de artigos publicados na imprensa nacional e estrangeira.

Meus Caros Amigos

Agora quanto ao nosso livro. Repetindo um pouco o que já foi dito nas anteriores sessões, tudo começou por uma fotografia amarelecida pelo tempo que a Noémia, algures em 2010, encontrou no seu baú de recordações, foto tirada no Instituto Superior Técnico, seguramente no ano de 1963, viu-se depois, durante um jogo de futebol entre amigos, dezasseis rapazes e uma aguerrida claque de cinco bonitas jovens.
Sobre esta foto, há coisas que sabemos e outras que não sabemos, ou de que já não nos conseguimos recordar.  
Sabemos que dos vinte e um estudantes que estão nesta foto, doze rapazes  eram do Técnico (Albano Nunes, António Redol, Carlos Marum, João Resende, José Gameiro, já falecido, José Gomes de Pina, João Santos Marques, Luís Bénard da Costa, também já falecido, Mário Lino, Mário Neto, Raimundo Narciso e  Rui Martins), um da Faculdade de Ciências (Ernâni Pinto Basto), um da Faculdade de Medicina (Jaime Mendes) e dois do último ano dos liceus (Joaquim Letria e Fernando Rosas).
Quanto às raparigas, uma era da Faculdade de Ciências (Paula Mourão) e três do último ano dos liceus (Marília Morais, Noémia Simões, agora de Ariztía e Teresa Tito de Morais). Desconhecíamos quem era a quinta rapariga, precisamente a que, na foto, está no meio das outras, a quem, por graça e pelo mistério, passámos a designar por “Mata-Hari”. Mas desde o final do mês passado que uma pista dada por um amigo pode conduzir a uma hipótese credível de ser também uma estudante liceal da altura, colega das restantes. Como ainda não se acusou, lá teremos de a obrigar a confessar…
E também ainda não sabemos quem tirou a foto, nem qual foi o resultado do jogo.
Voltando à Noémia e à foto, como já não se lembrava de algumas caras ou desconhecia outras, digitalizou-a, enviando-a por email ao Jaime Mendes, que, pelas mesmas razões, a reenviou ao Raimundo Narciso. Analisada por ele, teve a ideia de procurar reunir, de novo, todos os que para ela posaram, com o objectivo de fazerem um balanço das suas vidas e de gozarem a alegria de se reencontrarem. Para isso distribuiu a foto, também por email, aos que não tinha perdido o rasto, a maioria dos quais frequentara, nessa época, uma tertúlia no café Pão de Açúcar, na Alameda Afonso Henriques, escrevendo:  
“…a fotografia dos colegas de 1963 sugeriu-me a ideia de fazermos um livro. Digam-me o que vos parece ideia tão insensata.” E propunha ainda “um livro escrito a tantas mãos quantas os que, entre nós, se atrevessem a tanto”, interrogando-se:
“Interessaria aos mais novos, à geração dos nossos filhos e netos, conhecer, através de vivências e percursos de vida tão díspares, uma ponta desse mundo tão próximo e tão ignorado?”
 
Tratavam-se, de facto, de amigos ou colegas, activistas dos movimentos associativos estudantis que desenvolviam uma luta muito determinada, no plano cultural e político, contra a ditadura salazarista. Vários deles exerciam ou vieram a exercer funções dirigentes nos respectivos órgãos associativos. Com excepção de quatro ou cinco, todos eram, ilegal e secretamente, militantes do Partido Comunista Português, alguns deles já com responsabilidades organizativas.

A comunicação por email parece ter sido o sinal de partida. Ao fim de algum tempo já tínhamos praticamente conseguido estabelecer comunicação entre todos e os primeiros contactados aderiram à ideia com entusiasmo. Uns, pela proposta do livro e outros, pela ideia do convívio que restabeleceria, nalguns casos, pontes de anos ou de dezenas de anos entre vidas desencontradas, onde a política, a luta contra o regime, a clandestinidade, as prisões, os exílios e percursos por quatro continentes, a própria actividade profissional e a luta pela vida, tinham fraccionado o grupo daqueles jovens em múltiplas bolsas de amizades."
Estava lançado o desafio e em marcha, finalmente, o projecto do livro!
O primeiro encontro deu-se, em Abril de 2010, na casa de campo do Jaime e da Teresa, perto de Santarém. Compareceram doze ex-jovens, incluindo maridos e mulheres, todos com a cabeça ainda fresca e levantada. Trouxeram vinhos e sobremesas, conversaram, comeram e beberam, enchendo a casa de alegria.
Alguns já não se viam há quase meio século, sabíamos uns dos outros pelas notícias, poucos mantinham relações próximas. Mas parecia que o tempo não tinha passado por nós. O sentimento reinante foi de uma imediata e grande cumplicidade. Marcados por experiências diversas, permanecíamos unidos por aquilo que nos tinha juntado antes, a luta por um país melhor, com liberdade e democracia.

Ao longo de quase dois anos seguiram-se outros encontros, na tentativa de planearmos o livro, escolher o título, o formato, o número de páginas, os currículos e as fotos a incluir, etc., mobilizar vontades para a escrita, marcar objectivos, datas e acompanhar a sua evolução.
Por razões várias, apenas oito acabaram por participar como autores do livro A FOTO.
 
Nele revisitámos meio século das nossas vidas, encontros e desencontros, amizades e alheamentos, trajectos que não se cruzaram, amores, casamentos, compromissos, roturas, dú­vidas, actividade politica e profissional, vidas não coincidentes.
É, portanto, um livro de memórias, de uma geração em que muitos se bateram pelos valores da liberdade, do progresso, da justiça social, e que continuam unidos para que estes valores não se percam, antes se consolidem e aprofundem.
Mas estamos convencidos que a ética e os valores que defendemos permanecem actuais e universais, e que hoje, tal como ontem, as novas gerações também determinarão o seu próprio caminho, encontrando a melhor forma de se organizar em sociedades livres, justas, democráticas e sustentavelmente desenvolvidas.
 
Um Bem-Haja a todos.

Fernando Figueiredo apresentou "A FOTO" em Viseu

O Coronel Fernando Figueiredo, apresentou, com o Prof. Doutor António Correia de Campos o livro "A FOTO" no Solar do Vinho do Dão, em Viseu, em 2013-02-15.
A quem nãpo conheça e queira conhecer Fernando Figueiredo aconselho a leitura do post com a intervenção do José Gomes de Pina no mesmo evento e que será publicado a seguir a este. Ou então, ou então... uma visita ao seu já famoso blog Viseu Senhora da Beira.

 
 
Eis o que o Cor. Fernando Figueiredo disse na sua apresentação:

" Quando em 2004 descobri o mundo da blogosfera, o cidadão Fernando Figueiredo tinha por ideia aproveitar destas novas ferramentas de informação e criar um espaço onde pudesse ir retratando a cidade. Os primeiros posts foram inócuas descrições de lugares da cidade, figuras históricas, fotos e outras opiniões sem qualquer preocupação de análise mas tão só vulgares copy past do que já existia na internet e o Blogger permitia reunir no mesmo endereço. Mas, há sempre um mas, um comentador com o pseudónimo Beirão cedo marcou presença assídua no blog e mais depressa ainda com os seus assertivos, desapaixonados e ajustados comentários conduziu a que o VSB seguisse um outro caminho. Daquele quadro histórico e olhar fotográfico da cidade o Beirão conseguiu convencer o autor do VSB a ter “do alto da Sé, à luz dos valores do herói lusitano, um olhar critico, independente e exigente sobre as terras e gentes da região de Viriato. Com as referências do passado, as preocupações do presente e a esperança no futuro, caminhar em conjunto nesta encruzilhada de gentes e vontades beirãs da Cidade de Viseu teria de ser a sua marca!”
Ora, ao passar a ter uma intervenção mais activa de cidadania participativa na cidade que corresse até o risco de ser entendida como opinião politica não poderia por razões estatutárias deixar de o fazer na clandestinidade e a escolha do Bazookas como pseudónimo aconteceu naturalmente. Militar a querer não perder a cidadania só o poderia fazer protegido do “fogo adversário” e munido de armamento factualmente dissuasor. Na ocasião dizia-me até em jeito de graça um General a quem confessei tal desconforto de não me quer privar de participar na vida da cidade e ter que o fazer desta forma que se pode militarizar um civil mas civilizar um militar é tarefa mais difícil porque a farda cola-se à pele. E o blogue lá foi avançando, ganhando notoriedade, alguns amigos e muitos outros pouco amigos, espaço de debate, de denúncia, de controvérsia mas sobretudo tornou-se uma ponte entre aqueles que obrigando-se a sair da cidade, porque para eles se tornou pequena, nunca deixaram de a transportar consigo nas suas preocupações. E foram esses, e em especial o Beirão, que nunca deixaram que o espaço fechasse portas como tantas vezes o tentei fazer e outras tantas me apeteceu pela incompreensão ou ingratidão que por este ou aquele motivo fui encontrando, dado que não sendo detentor da verdade também nesta ou naquela ocasião terei sido injusto ou mesmo ingrato com um ou outro assunto ou visado nele.
Anos mais tarde a passagem à reserva por minha livre escolha antecipando igual decisão do Papa e contrariando a norma geral de quem vive alapado ao poder e dele vive como se coisa sua se tratasse, permitiu trocar a bazooka pela caneta e dar a cara além do corpo às balas. Curiosamente, dizem-me que hoje incomoda mais a caneta desta minha faceta de cidadania interventiva que a bazooka de tempos idos, mas enfim, eu também ainda não me habituei à ideia de encontrar na política quem se arrogue a limitar a liberdade de expressão daqueles que em Abril de 74 lhe devolveram esse valor maior da democracia. Outra curiosidade que aqui partilho convosco é a de saber onde raio me irão colar politicamente agora depois de me saberem envolvido neste evento com os “duros” da foto!
Adiante, pois, foi assim já como activo cidadão na reserva militar que tropecei um dia numa foto e surpresa das surpresas, o Beirão de pseudónimo era também ele um viseense activo na sua cidadania e possuidor de uma história de luta pela liberdade.
Fiz esta curta alusão ao VSB para perceberem do paralelismo com este grupo de oito jovens que, com mais treze outros, tiraram uma fotografia de circunstância, em 1963, no campo de futebol do I.S.Técnico e que também parte deles viveram na clandestinidade sem nunca se privarem do direito e dever de lutar por um Portugal livre e democrático. São eles que, tal como o VSB serve de ligação com os viseenses espalhados pelo global espaço cibernético, também servem de ponte com o Portugal de ontem e de hoje.
São eles que nos contam da “sociedade tacanha e retrógrada (…) (que) não aceitava facilmente os jovens a intervirem e a contribuírem para as grandes mudanças que se avizinhavam como certas” ou da “prossecução da utopia e a confiança num futuro melhor pelo qual vale a pena lutar.
São eles que nos contam “do medo que todos os dias de mansinho se insinuava nas vidas de quem não fora feito para estas vidas” retratando o Portugal daquele tempo da ditadura.
Significativo ainda, no livro que hoje aqui se apresenta aos viseenses, se mostre como a política era, mais que tudo, um compromisso de estar com os outros e tecer com eles laços de cumplicidade no desiderato de um futuro comum. Apesar das diferenças, havia muito que os unia e um Portugal inteiro a reclamar progresso dependia dessa comunhão de interesses.
Viseu também surge neste livro retratada pelo Gomes de Pina, o viseense, mostrando a vida na cidade de então, as tradições, o pensar dos seus habitantes, a vida do jovem que se obriga a estudar em Lisboa sem esquecer a cidade. Anos depois o Beirão do VSB continua a participar com as suas diferentes opiniões no desiderato de uma Viseu mais desenvolvida, sustentada e projectada no futuro com mais emprego, bem estar e qualidade de vida para além do betão e da flor da rotunda que garantam que outros Gomes de Pina não precisem de encontrar em Lisboa nada que Viseu não lhes possa oferecer. É nesta diversidade que mais não adianto para não vos roubar o prazer da leitura, que Gomes de Pina situa a necessidade de discutir a cidade e que mostra que, apesar das nossas diferenças, Viseu tem que ser um projecto comum, aparte das politiquices e visão rotundista que alguns dos responsáveis pela sua gestão autárquica ainda teimam em manter.
Citando José Manuel Pureza a propósito deste livro, também eu infelizmente comungo da ideia que “daqui a 50 anos, um livro escrito por oito jovens activistas de hoje não terá estas referências. Falará de precariedade, de desilusão, de emigração. Talvez fale da democracia como uma promessa sempre querida.”
Cada um dos autores desta foto local e nacional acabou por escolher diferentes caminhos partidários, mas há um tempo que lhes foi comum, uma ética que ultrapassa partidos e esse é o grande legado que neste livro, na minha óptica, deixam às gerações vindouras.
É por isto que lhes fico grato e é por esta oportunidade de convosco o partilhar que lhes deixo o meu beirão Bem Hajam!

2013-02-11

José Manuel Pureza e A FOTO

José Manuel Pureza foi um dos apresentadores do livro A FOTO em Coimbra e as palavras, repassadas de simpatia, que dedicou aos autores a todos sensibilizou sobremaneira. Agora oferecemo-las aos leitores do blog e do livro porque se elas dizem muito sobre aqueles anos 60 amortalhados pela ditadura dizem também muito, indiretamente, sobre quem as diz.
 
Eis o que José Manuel Pureza disse em Coimbra, em 19 de Novembro de 2011:
Raimundo Narciso começa o seu capítulo neste livro citando um excerto de Sophia de Mello Breyner Andresen. É belíssimo e é uma belíssima síntese do espírito e do conteúdo deste livro. Diz assim: “Este é o amor das palavras demoradas / moradas habitadas / Nelas mora / em memória e demora / o nosso breve encontro com a vida”.
 
O livro que aqui estamos a apresentar assume esse propósito de resgatar, em memória e demora, o breve mas denso encontro com a vida de oito jovens que, com mais treze outros, tiraram uma fotografia de circunstância, em 1963, no campo de futebol do Técnico. A revisitação desta fotografia é um exercício muito semelhante ao que o Professor Keating – personagem imorredoura de “O Clube dos Poetas Mortos” – fez com os seus alunos: ao olharem intensamente para as fotografias dos antigos alunos da academia de elite que agora frequentavam, os alunos de Keating ouviam os sussurros insistentes de “carpe diem” como desafio às suas vidas. Assim também nós, os leitores de “A Foto”, olhamos para a fotografia que motivou a escrita e ouvimos distintamente o Jaime Mendes, a Noémia de Ariztía ou o Joaquim Letria a falarem-nos da “sociedade tacanha e retrógrada (…) (que) não aceitava facilmente os jovens a intervirem e a contribuírem para as grandes mudanças que se avizinhavam como certas” – como escreve Teresa Tito de Morais – ou da “prossecução da utopia e a confiança num futuro melhor pelo qual vale a pena lutar; (…) (do) sentimento da importância da nossa ação individual e coletiva; (ou da) vivência da generosidade e do companheirismo, da alegria de viver, pensar e agir” – como escreve Mário Lino. Tirada no Portugal cinzento escuro em que se estudava para ter um modo funcionário de viver – e em que, como escreve Raimundo Narciso, “pior que os sustos era o medo que todos os dias de mansinho se insinuava nas vidas de quem não fora feito para estas vidas” – a foto traz sussurros de um claro carpe diem pronunciado no Português da primeira metade da década de sessenta.
É significativo que se trate de uma rememoração coletiva. Porque isso mostra como a política era, mais que tudo, um compromisso em que estar com os outros e tecer com eles laços de cumplicidade fundos era essencial. Tão essencial que esses laços perduraram no tempo e não foram abalados pelos diferentes caminhos partidários depois percorridos pelos rostos da foto. É que esses rostos não nos falam apenas de um tempo que lhes foi comum, mas de uma ética que partilharam. Daqui a quarenta e nove anos, um livro escrito por oito jovens ativistas de hoje não terá estas referências. Falará de precariedade, de desilusão, de emigração. Talvez fale – espero eu – da democracia como uma promessa sempre querida.
Recordar vem do Latim: re-cordis, voltar a passar pelo coração. Recordar as palavras e os gestos de desassombro diante da ditadura, recordar o que custou cada rutura com os cânones bafientos, recordar cada passo da aprendizagem da democracia muito antes da sua conquista política e do sentido da combinação fecunda entre a irredutível liberdade de cada um e o primado do coletivo, recordar também as trivialidades do quotidiano (o piano de Mário Lino, o Volkswagen carocha de Noémia de Ariztía avariado na auto-estrada alemã ou a má relação de Jaime Mendes com os cães… - recordar tudo isto pode ser uma forma única de resistir à lobotomia coletiva alimentada pelas grandes máquinas informativas contemporâneas, que elimina subtilmente referências e critérios de juízo. Hoje, cada vez mais, a História é-nos servida como um amontoado informe de flashes sem sentido, diante do qual somos convidados a adotar a explicação mais preguiçosa e superficial como a que vale. Neste quadro do primado do soundbyte, nada tem origens, e muito menos origens complexas. Tudo é simples, linear, a preto e branco, e esgota-se em dois dias de prime time televisivo.
A desmemória é uma estratégia dos neutralizadores da História. Para eles, lembrar porquê e por que não é uma ameaça. Ter consciência das raízes e dos caminhos percorridos e por percorrer é uma potencial subversão. Os cordeirinhos, todos alinhadinhos – mesmo que seja para o matadouro – dispensam bem a memória. Pois bem, nós não. Os oito que a partilham connosco neste livro fazem dele um exercício de serviço público. E assim homenageiam o poeta que escreveu: “As folhas vão-se / e nós também / Não é vento, é movimento / fluir do tempo, amor e morte / agora mesmo e para todo o sempre. Amen.” Esse poeta é Manuel Alegre. E eu tenho muita honra em partilhar esta apresentação e esta convocação da memória com ele

2012-12-23

Boas Festas



Os autores de A FOTO desejam, mais ainda dado o contexto adverso, a todos os visitantes deste blog assim como às suas famílias um Bom Natal e um Ano Novo próspero e feliz.

2012-12-21

A Foto do BEIRÃO

Antecipando a apresentação de A FOTO em Viseu, Fernando Pereira de Figueiredo, coronel de Infantaria na reserva, autor do blog Viseu Senhora da Beira, beirão e viseense de gema, segundo concluo, colocou um simpático post no seu blog sobre o "nosso" livro que, estou certo, não escapará à atenção daquele comité que leva o nome do célebre inventor da dinamite e que não gostava de prémios, Alfred Nobel.
O nosso amigo Beirão, que não quero dizer aqui que é o Zé Gomes de Pina, porque já todos sabem, e um dos principais autores de A FOTO, foi quem me informou do post e do blog. Naturalmente fê-lo com aquela modéstia que lhe conhecemos quase pedindo desculpa de ser ele o autor eleito do artigo bloguista, na justa qualidade de viseense pela pena de viseense. 
Podia ficar apenas ali em cima o link para o blog Viseu Senhora da Beira mas fico mais confortável colocando o post aqui também. E de caminho felicito o Cor. Fernando Figueiredo pelo seu muito interessante  blog. Eis o post:
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Logo no primeiro comentário que recebi do leitor que se identificava como "Beirão" percebi que a sua ligação à cidade vivia da paixão que lhe dedicava sem perder a objectividade da visão critica da realidade. Corrigiu-me análises, ajudo-me a melhorar o grafismo, apontou-me caminhos e tem-me acompanhado ao longo destes anos sempre com a mesma cordialidade e ajustado comentário. Dava a entender que não esquecia as raízes e lembrava-se ainda do tempo em que "as viagens entre Viseu e Lisboa obrigavam a sucessivos transbordos em Santa Comba (linha do Dão) e Pampilhosa (linha da Beira Alta) durante mais de sete horas de viagem no meio de malas, cestos, pessoal em pé, as conversas informais, os farnéis, o nosso portuga em pleno, os amigos e conhecidos que se encontravam, a "autoridade" do revisor, enfim, um romance por viagem." O Eng José Gomes de Pina, o Beirão, encontrei-o há dias na minha caixa de correio graças à sua simpatia na forma de livro que li com prazer e onde descobri que é um ilustre viseense, com um curriculum invejável e com este legado memorável de um retrato do país dos anos 60 e 70 onde a sua juventude de então, irreverente, destemida e cheia de ideais lutou pela liberdade e progresso de Portugal. Espero voltar a encontrá-lo fisicamente em breve cá pelo burgo na apresentação do livro para que à volta de um café lhe possa entregar o abraço fraterno e dizer-lhe de viva voz a estima e consideração que nestes anos me merece como leitor assíduo do VSB.

2012-12-02

A intervenção de Mário Lino no Porto

José Gomes de Pina, Noémia de Ariztia, Paula Correia, Raimundo Narciso,Teresa Tito de Morais, António Baptita Lopes, Augusto Santos Silva, Mário Lino e José Ilídio Ribeiro

Caros amigos

Em nome dos oito aurores do livro “A FOTO e o Reencontro Meio Século Depois”, cabe-me dizer algumas palavras nesta sessão de apresentação no Porto, tal como o Raimundo Narciso e a Teresa Tito de Morais já o fizeram nas sessões realizadas, respectivamente, em Lisboa, no dia 11 de Junho, e em Coimbra no dia 19 de Novembro. 
Gostaria de começar por saudar todos os presentes que aceitaram o nosso convite para participar nesta sessão, dizendo-lhes que muito nos sensibiliza o facto de partilharem connosco a alegria e a satisfação que temos na apresentação e divulgação do nosso livro. 
Gostaria, também, de agradecer à Câmara Municipal do Porto, a disponibilidade e apoio manifestados com a cedência destas instalações para a realização desta sessão de apresentação. 
Gostaria, ainda, de agradecer à Editora Âncora e ao Dr. António Baptista Lopes o entusiasmo e empenho com que sempre nos apoiaram na concretização deste projecto. 
Uma palavra de particular destaque e apreço é devida ao Prof. Dr. Augusto Santos Silva e ao Dr. José Ilídio Ribeiro que irão apresentar o nosso livro.
O José Ilídio Ribeiro foi estudante universitário da Faculdade de Medicina do Porto, quando nós éramos também estudantes universitários ou dos últimos anos do Liceu em Lisboa, tendo terminado o seu curso em 1967. Como nós, também se envolveu nas lutas estudantis dos anos sessenta. Em 1969 foi incorporado como médico militar, tendo sido mobilizado pera a guerra colonial em Angola, em Outubro desse ano, donde regressou em Outubro de 1971. Em 1973 e 1974 fez parte da Direcção Regional Norte da Ordem dos Médicos. Depois de concluir o internato em 1975, ingressou no Hospital Eduardo Santos Silva, agora Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, onde exerceu sempre funções.
Em resultado da sua reconhecida competência e dedicação profissional, exerceu diversas responsabilidades hospitalares, tendo, em 1996, sido eleito pelo Corpo Clínico daquele Centro Hospitalar para seu Director Clínico, cargo que manteve até se reformar em 2002. 
Contrariamente a alguns dos autores do livro que apenas deram uns toques na bola quando eram estudantes (provavelmente mais para se armarem em desportistas à frente das namoradas), o José Ilídio Ribeiro foi um desportista com provas dadas e créditos firmados, tendo defendido a equipa dos médicos nas modalidades de andebol, basquetebol e futebol, e sido atleta federado de andebol, Presidente da Associação de Andebol do Porto e dirigente do Futebol Clube da Maia.   

O Augusto Santos Silva é de uma geração posterior: começou a frequentar a Faculdade de Letras do Porto em 1973, tendo-se licenciado em História em 1978, e depois, em 1992, doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.  
Enquanto estudante universitário, empenhou-se activamente no movimento associativo estudantil, tendo sido membro da Direcção da Associação dos Estudantes da Faculdade de Letras do Porto em 1977, portanto já depois da Revolução de Abril. 
É docente da Faculdade de Economia do Porto desde 1981, actualmente com a categoria de Professor Catedrático. Em 1998/1999, foi Pró-Reitor da Universidade do Porto e Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Economia do Porto. A par da sua actividade enquanto docente, tem desenvolvido outras relevantes actividades de intervenção cívica, designadamente nos domínios da política, da educação e da cultura, e enquanto colunista e cronista de comunicação social. 
No que se refere, em particular, à sua actividade política, integrou diversos órgãos do Partido Socialista, tanto a nível do distrito do Porto como a nível nacional; foi eleito, por diversas vezes, deputado à Assembleia da República pelo círculo eleitoral do Porto; e exerceu funções governativas em três Governos Constitucionais, designadamente como Secretário de Estado da Administração Educativa, Ministro da Educação, Ministro da Cultura, Ministro dos Assuntos Parlamentares e Ministro da Defesa. 
Conheci pessoalmente e convivi muito intensamente com o Augusto Santos Silva quando ele era Ministro dos Assuntos Parlamentares, durante os 4 anos e meio que integrámos o XVII Governo Constitucional, entre 2005 e 2009, tendo beneficiado muito da sua experiência política, governativa e parlamentar, guardando desse convívio recordações muito gratas.
Quero deixar uma saudação muito amiga ao José Ilídio Ribeiro e ao Augusto Santos Silva que muito nos honraram com a sua disponibilidade para fazer a apresentação do nosso livro nesta sessão, e aos quais queremos, pública e muito reconhecidamente, agradecer. 

Meus caros amigos
 
Em Março de 1963, um grupo de 21 estudantes pousou para a foto que está reproduzida na capa do livro, tirada no campo de futebol da Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico, em Lisboa.
Sobre esta foto, há coisas que sabemos e coisas que não sabemos, ou de que já não nos recordamos.
Sabemos que são 21 estudantes que estão nesta foto, 16 rapazes e 5 raparigas. 12 dos rapazes  eram do Técnico (Albano Nunes, António Redol, Carlos Marum, João Resende, José Gameiro, já falecido, José Gomes de Pina, João Santos Marques, Luís Bénard da Costa, também já falecido, Mário Lino, Mário Neto, Raimundo Narciso e  Rui Martins), 1 da Faculdade de Ciências de Lisboa (Ernâni Pinto Basto), 1 da Faculdade de Medicina de Lisboa (Jaime Mendes) e 2 do último ano dos liceus (Joaquim Letria e Fernando Rosas).
Quanto às raparigas, 1 era da Faculdade de Ciências de Lisboa (Paula Mourão) e 3 do último ano dos liceus (Marília Morais, Noémia Simões, agora de Ariztía e Teresa Tito de Morais). Desconhecemos quem é a quinta rapariga, precisamente a que, na foto, está no meio das 5.
Também não sabemos quem tirou a foto.
10 dos rapazes estavam equipados para o jogo de futebol que se seguiu à foto. Um dos rapazes, o João Santos Marques que está de apito na mão, fez de árbitro. Os outros 5 rapazes e as 5 raparigas constituíam a claque, mas desconhecemos qual foi o resultado do jogo.
Também sabemos porque estavam juntos: eram amigos, activistas dos movimentos associativos estudantis que desenvolviam uma luta muito determinada, no plano cultural e político, contra a ditadura salazarista. Vários deles exerciam ou vieram a exercer funções dirigentes nos respectivos órgãos associativos. Com excepção de quatro ou cinco, todos eram, ilegal e secretamente, militantes do Partido Comunista Português, alguns deles já com responsabilidades organizativas.
Nos anos que se seguiram a este encontro de futebol, os estudantes de todo o País sofreram sucessivas e violentas vagas repressivas. Do grupo da foto, em momentos diferentes:
·        Foram expulsos da universidade, Ernâni Pinto Bastos (15 dias da Faculdade de Ciências de Lisboa) e Mário Lino (2 anos de todas as universidades do País).
·        Foram presos pela PIDE, Carlos Marum, Fernando Rosas, João Resende, João Santos Marques, Mário Lino, Mário Neto e Teresa Tito de Morais.
·         Sofreram o exílio, Jaime Mendes, Carlos Marum e Noémia de Ariztía.
·        Passaram a viver na clandestinidade em Portugal, para combater a ditadura, Albano Nunes, João Resende, João Santos Marques e Raimundo Narciso.

Decorridos quase 50 anos, quando, um dia, no início de Janeiro de 2010, a Noémia de Ariztía estava a fazer arrumações em sua casa, deparou-se com uma velha caixa de lápis de cor que continha, entre outras relíquias, aquela foto tirada em Março de 1963. A descoberta trouxe-lhe à memória acontecimentos há muito passados e uma grande vontade de saber o que tinha entretanto acontecido aqueles amigos. Digitalizou a foto e enviou-a por mail ao Jaime Mendes, com quem mantinha contacto, para ver o que é que ele sabia. O Jaime, por seu turno, reenviou a foto ao Raimundo Narciso que teve a ideia de procurar reunir, de novo, todos os que para ela posaram, com o objectivo de fazerem um balanço das suas vidas e de gozarem a alegria de se reencontrarem. Para isso distribuiu a foto, por mail, aos que não tinha perdido o rasto, escrevendo:

            «[…] A fotografia dos colegas de 1963 sugeriu-me a ideia de fazermos um livro. Vai tudo explicado no ficheiro anexo. Digam-me o que vos parece ideia tão insensata».

O anexo do e-mail era um texto longo a rebuscar mil e uma razões que tornasse aliciante a proposta ou, pelo menos, que evitasse que a considerássemos uma proposta tola. O Raimundo Narciso propunha «um livro escrito a tantas mãos quantos os que, entre nós, se atrevessem a tanto», e interrogava-se: «Interessaria aos mais novos, à geração dos nossos filhos e netos, conhecer, através de vivências e percursos de vida tão díspares, uma ponta desse mundo tão próximo e tão ignorado?». 
Os primeiros contactados aderiram à ideia com entusiasmo. Uns, pela proposta do livro e outros, pela ideia do convívio que restabeleceria, nalguns casos, pontes de anos ou de dezenas de anos entre vidas desencontradas.
A mensagem electrónica foi, pois, o sinal. Muitas outras refizeram os contactos e as amizades perdidas em quase meio século de viagem, em que alguns ficaram pelo caminho. A política, a luta contra o regime fascista, as prisões, a clandestinidade, os exílios, percursos por quatro continentes, a actividade profissional, a luta pela vida, encontros e desen­contros, fraccionaram o grupo daqueles jovens em múltiplas bolsas de amizades.
Ao fim de algum tempo já tínhamos estabelecido contacto entre todos. Seguiram-se, ao longo de quase dois anos, diversos almoços de convívio em casa de vários dos participantes na foto, para planearmos o livro e acompanharmos a evolução da sua escrita.
Por razões várias, apenas oito dos estudantes presentes na foto aca­baram por concretizar este projecto. 
O livro foi editado em Junho de 2012. A sessão de lançamento realizou-se no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa, contando com as intervenções do Dr. Jorge Sampaio que apresentou o livro, e do Reitor, Prof. Dr. Sampaio da Nóvoa.  

Neste livro, "revisitámos meio século das nossas vidas, encontros e desencontros, amizades e alheamentos, trajectos que não se cruzaram, amores, casamentos, compromissos, roturas, dú­vidas, vidas não coincidentes." É, portanto, um livro de memórias de uma geração em que muitos se bateram pelos valores da liberdade, do progresso, da justiça social, e que continuam unidos para que estes valores não se percam, mas antes se consolidem e aprofundem. 

Estamos num tempo em que muitas das conquistas sociais, tardiamente conquistadas em Portugal após o 25 de Abril de 1974, e na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, estão a ser fortemente atacadas pela especulação dos mercados financeiros internacionais, e em que estamos confrontados com a tibieza e inadequação das respostas que a UE vai, penosamente, engendrando, e com a austeridade ideológica e letal com que o Governo vai sufocando o País.
Por outro lado, enfrentamos hoje, em Portugal, na Europa e no Mundo, novas lutas e desafios, e novas bandeiras se levantam.
Mas estamos firmemente convictos que a ética e os valores que defendemos se mantêm actuais e universais, e que hoje, tal como ontem, as novas gerações farão o seu caminho e encontrarão a melhor forma de se organizarem em sociedades mais livres, democráticas, sustentavelmente desenvolvidas e justas.

E mais não digo, convidando-vos apenas a ler o nosso livro.

Ata da apresentação do livro no Porto

Os autores de "A FOTO" chegaram ao Porto, na 6ªf, 30 de Novembro, ainda de manhã para uma breve visita à Cidade Invicta e um almoço que nos conciliasse com a árdua tarefa da apresentação do livro que fora entregue a dois ilustres intelectuais, figuras públicas da ciência e da política.
A sala não tinha uma multidão como em Lisboa mas não envergonhava. Na assistência além de dois ou três amigos só reconheci a ex-ministra Isabel Pires de Lima.
O Editor, António Baptista Lopes, falou, com o seu fino sentido profissional, da reconhecida excelência da edição e não menor excelência dos autores. Com tão apurado tato que a assistência aguçou o olhar, meio incrédula, para as reluzentes lombadas dos livros, estrategicamente expostos pela sua eficaz colaboradora Inês Figueiras.
Seguiu-se-lhe no uso da palavra Mário Lino, autor em nome dos autores, que apresentou os apresentadores e levou em seguida, com apurada eficácia, como é seu timbre, a assistência a percorrer as recônditas e mais apetecidas veredas do jardim das delícias que são os diferentes capítulos da obra.
Falou então o apresentador José Ilídio Ribeiro distintíssimo médico, na qualidade de antigo estudante da geração dos autores e como eles um partícipe das lutas estudantis contra a ditadura, não poupou palavras e razões que evidenciaram, como é próprio nestas circunstâncias, quão marcante ficará para a História a obra que tinha a responsabilidade de dar a conhecer à atenta plateia.
Last but not least tomou a palavra Augusto Santos Silva, professor catedrático e figura incontornável de parlamentar e governante em várias pastas dos últimos governos socialistas, que pelos seus dotes oratórios e assertiva capacidade crítica deixou prostrada uma multidão de opositores pelos campos de batalha política em que terçou armas.  Fez um levantamento da gesta do movimentos estudantis dos anos 60 do século XX e das lutas políticas contra a ditadura que foi o terreno fértil em que desabrocharam as aventuras relatadas no livro.
A escolha dos apresentadores foi a todos os títulos acertada porque as suas justíssimas apreciações deixaram impante o ego dos autores que, para assinalar o evento, decidiram-se pela excelente gastronomia local num aprazível restaurante nem muito caro nem muito barato decididos a gastar o dinheiro antes que o governo o saque com cortes, taxas e sobretaxas a que chama eufemisticamente “cortes na despesa do Estado”.

2012-11-23

Apresentação de "A FOTO" no Porto

No próximo dia 30 de Novembro, sexta-feira, pelas 18h00, realiza-se no Porto, no Palacete dos Viscondes de Balsemão, Praça Carlos Alberto, 71, mais uma sessão de apresentação do nosso livro.

Os apresentadores serão Augusto Santos Silva e José Ilídio, o que muito nos honra e sensibiliza e a quem, publicamente, muito agradecemos a disponibilidade manifestada.

Os nossos públicos agradecimentos vão também para a Câmara Municipal do Porto, pelo seu apoio à realização desta sessão.

Aqui fica o convite para todos os interessados. Lá vos esperaremos.




2012-11-21

Manuel Alegre à Lusa na apresentação de A FOTO

Na apresentação do livro A FOTO, em Coimbra, no dia 19 (ver post anterior) a Lusa entrevistou Manuel Alegre que, em resposta às questões colocadas, pronunciou-se sobre a ctualidade política e em seguida sobre o livro que com José Manuel Pureza acabara de apresentar. Dada a notoriedade de Manuel Alegre as suas declarações à Lusa, a seguir reproduzidas, tiveram um vasto eco nos media em especial nas versões on line , como por exemplo no Público, DN, Jornal I, O Sol, As Beiras,  TVI-24, Almedina, Agencia Financeira ou até no Brasil-Local. (A notícia é a da Lusa em todos os media e os sublinhados a cores são obviamente da minha autoria)
 
 A notícia da Lusa:
 
O antigo candidato à Presidência da República Manuel Alegre recusou hoje "um Portugal de joelhos" perante instâncias de poder internacionais, exortando os cidadãos a resistirem "às perdas de soberania".
"Cada vez mais é preciso resistir, não só às perdas de soberania", mas também "aos atentados à dignidade e à identidade" do povo português, disse Manuel Alegre, em Coimbra, na apresentação do livro "A foto e o reencontro meio século depois", escrito por oito antigos estudantes envolvidos na oposição à ditadura de Salazar.
Neste contexto, o poeta disse ter sentido "revolta e vergonha", na semana passada, quando Angela Merkel visitou Portugal, ao ver o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, "comportar-se como um súbdito" da chanceler da Alemanha.
Manuel Alegre, tal como o ex-líder parlamentar do Bloco de Esquerda José Manuel Pureza, que partilhou a apresentação do livro com o histórico socialista, realçou a dimensão ética da obra.
"Este livro é eticamente importante", porque cada um dos autores "assume com inteireza a sua vida", disse.
Também para José Manuel Pureza, professor de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra, "A foto e o reencontro meio século depois" simboliza "uma ética que partilharam" Jaime Mendes, Joaquim Letria, José Gomes de Pina, Mário Lino, Noémia de Ariztía, Paula Mourão, Raimundo Narciso e Teresa Tito de Morais.
O ponto de partida para o livro foi uma foto tirada em 1963, em Lisboa, durante uma jornada de convívio na Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico (IST), em que participaram ativistas do movimento associativo estudantil.
Na foto, que estava esquecida e foi encontrada por acaso há pouco anos, figuram 21 jovens universitários, incluindo os oito que vieram a escrever o livro, editado pela Âncora, que, segundo José Manuel Pureza, permite "resgatar em memória e demora o breve mas denso encontro com a vida".
As suas páginas, é possível "recordar o que é sendo, mas parece trivial", incluindo "o que custou cada rotura com os cânones bafientos" da ditadura fascista, acrescentou.
Dos 21 protagonistas da imagem inspiradora, apenas uma mulher não foi ainda identificada, "nem nenhum de nós se lembra quem tirou a fotografia", referiu Teresa Tito de Morais, ao intervir em nome dos autores. Dois dos fotografados, José Gameiro e Luís Bénard da Costa, já faleceram.
"Esta é uma geração que esteve unida para que não se volte para trás. Não é de maneira nenhuma um livro saudosista do passado", esclareceu.
Para Manuel Alegre, "este livro é mais do que um momento" vivido pelos jovens da foto, há 49 anos, no campo de futebol do IST.
"Eu olho para a foto e vejo o Eurico de Figueiredo, o Jorge Sampaio, Zeca Afonso, Rui Namorado e Luiz Goes", entre outros dos protagonistas das crises académicas dos anos 60 do século passado, em Lisboa ou em Coimbra, disse, admitindo que ele próprio também se revê no que representa aquela imagem.
Alegre evocou ainda, a propósito, os antifascistas Tito de Morais e Piteira Santos. Mas, na sua opinião, também o líder histórico do PCP, Álvaro Cunhal, está presente

2012-11-20

As belíssimas palavras da Teresa Tito de Morais,em Coimbra

Realizou-se ontem, em Coimbra, na Casa Municipal da Cultura, a apresentação do livro A FOTO.  Ao longo de uma vasta mesa alinhavam-se os oito autores do livro, a Inês Figueiras em representação da Editora Âncora e os apresentadores José Manuel Pureza e Manuel Alegre ilustres coimbrões que tiveram além da gentileza de aceitar o nosso convite a amabilidade de enaltecerem o significado do livro como um importante e multifacetado testemunho das lutas dos Portugueses pela Liberdade.
A sessão foi iniciada por  Inês Figueiras a cuja intervenção se seguiram as de Teresa Tito de Morais Mendes em representação dos oito autores, de José Manuel Pureza e de Manuel Alegre.
De momento temos disponíveis apenas as belíssimas palavras da Teresa que aqui vos deixo. Em breve terei, espero, as outras intervenções e, se demorarem, farei algumas considerações com prudente cautela para não destoarem excessivamente do brilho daquelas.

Eis a palavra da Teresa Tito de Morais Mendes:

Cabe-me a mim falar em representação dos 8 autores do livro “A Foto e o reencontro meio século depois ….”

Faço-o com enorme prazer, embora ciente de que vou ter alguma dificuldade, e vou ficar muito àquem das apresentações dos meus amigos, co-autores do livro, a começar pela do Raimundo, o grande impulsionador desta “aventura”, na Aula Magna da Reitoria, em Lisboa, no passado dia 11 de Junho.
Começo por saudar todos os presentes, nomeadamente o Manuel Alegre e José Manuel Pureza que aceitaram apresentar o nosso livro em Coimbra. Agradecer à Casa Municipal da Cultura pela hospitalidade para a realização desta sessão.
De gerações diferentes, com olhares também diferentes, vai ser bom ouvir o Manuel Alegre e José Manuel Pureza. Vão certamente analisar um período marcante da história do nosso país, sentir o pulso das nossas emoções, através das histórias contadas no livro, dos percursos de vida de cada um de nós, da luta contra o regime fascista, das associações e pró-associações dos estudantes, da prisão, do exílio, da guerra colonial, dos encontros e desencontros e sobretudo dos afectos.
Conheci o Manuel Alegre na Suíça, nos anos 60, onde eu e o Jaime morávamos. Vivia em Argel e de vez em quando deslocava-se à Europa. Talvez ele já não se lembre, mas uma vez estava em França, em Lyon, e pretendia entrar na Suíça. Viajava com passaporte falso. Eu, o Jaime e o Eurico Figueiredo fomos buscá-lo de carro e quando passámos a fronteira, em Genève, receosos que ele fosse apanhado, vimos com surpresa o guarda a examinar minuciosamente os nossos passaportes ( passados pelo Consulado de Portugal ), sobretudo o do Eurico. 
Quanto ao do Manel, que era completamente falso, o polícia afirmou: “Este não levanta qualquer dúvida”. Levou então os nossos para verificações mais cuidadas….
Na altura em que tirámos a Foto, o Manel Alegre estaria seguramente em Angola, onde foi preso pela PIDE em 1963.
Quanto ao José Manuel Pureza também já lá vão alguns anos que nos conhecemos, quase 20….. Foi em 1995, por aí, quando ele entrou no escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, em Lisboa, para nos convidar a dar uma aula, sobre o asilo e os refugiados, para os estudantes de Relações Internacionais, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. 
Professor, investigador do CES, defensor inabalável dos Direitos Humanos, grande pedagogo, muito querido dos seus alunos, entendeu sempre o ensino com uma componente prática, que só uma organização com trabalho no terreno pode transmitir. Começámos assim uma boa e frutuosa colaboração que se estendeu por vários anos. O Zé Manel Pureza, por outro lado, passou a ser convidado “residente” de todos os Congressos Internacionais do Conselho Português para os Refugiados, na Gulbenkian, com intervenções magníficas sobre as questões ligadas aos Direitos Humanos, Migrações e Estudos para a Paz.

 Obrigada aos dois por estarem aqui connosco.

Obrigada também à Editora Ãncora, e ao António Batista Lopes, na pessoa da Inês Figueira, pelo entusiasmo e força que nos deram para terminarmos este projeto e editar o livro.
                                           
Tudo começou por uma fotografia dentro de uma caixinha, perdida algures no quarto da Noémia. Há quem diga que estava dentro dum baú. Eu, por meu lado, imaginei a Noémia, numa crise frenética de limpeza, de espanador na mão, a encontrá-la debaixo da cama, qual tesouro escondido.
Mas decididamente não foi assim. A Noémia estava sossegadamente sentada no sofá, com uma ponta de nostalgia, pegou ao acaso numa caixa e encontrou a foto, já um pouco amarelecida, tirada no Instituto Superior Técnico durante um jogo de futebol, com uma claque feminina de 5 jovens, seguramente no ano de 1963. 
Foi para o computador e enviou-a para o Jaime, dizendo:  “Olha o que eu encontrei?”.
Por seu lado, o Jaime mandou-a para o Raimundo e, tempos depois, nos finais de Janeiro de 2010, o Raimundo lançou o desafio:

“…a fotografia dos colegas de 1963 sugeriu-me a ideia de fazermos um livro. Digam-me o que vos parece ideia tão insensata.”
No ficheiro anexo propunha ainda “um livro escrito a tantas mãos quantas os que, entre nós, se atrevam a tanto”.
As modernas técnicas de comunicação, o correio eletrónico e o Facebook serviram para identificar a maioria dos colegas. Dois desses estudantes não chegaram até nós: José Gameiro, falecido na Africa do Sul em 1978, e Luís Bénard da Costa, que morreu em 2008. Do grupo, 11 são estudantes do ISTécnico, dois da Faculdade de Ciências, um de Medicina e seis do último ano dos liceus.
Permanece o mistério, quanto à identidade da jovem do meio.  Passámos a chamá-la Mata Hari…. e interrogamo-nos também com a dúvida de “quem teria tirado a fotografia”
O primeiro encontro deu-se, em Abril de 2010, na nossa casa em Casais da Aroeira. Compareceram 12, acompanhados dos maridos e mulheres. Trouxeram vinhos e sobremesas, encheram a casa de alegria.
Alguns já não se viam há mais de 4 décadas, sabíamos de outros pelas notícias, e poucos mantinham relações próximas. Mas parecia que o tempo não tinha passado. O sentimento foi de grande cumplicidade. Marcados por experiências diversas, permanecíamos unidos por aquilo que nos juntou 47 anos antes: a luta por um país com liberdade e democracia.
Seguiram-se outros convívios, em casa da Paula e do Mário Lino, na Ericeira, do Joaquim e da Berta, na Verdizela, e no atelier do Pancho, em Lisboa, distinto pintor Francisco Ariztia, que ofereceu uma imagem lindíssima para o marcador do livro, onde a Noémia nos serviu as célebres “empanadas”.
Por razões várias apenas oito acabaram por participar no livro e foi combinado que relataríamos, com toda a liberdade, cenas da nossa vida desde 63 até aos dias de hoje.
Assim, o Joaquim Letria apresenta, com a sua pena ágil e o sentido de humor que lhe é característico, um a um, cada protagonista desta história. O Jaime Mendes conta a passagem a salto para o exílio e os tempos conturbados das campanhas de dinamização, após o 25 de Abril. O José Gomes Pina fala-nos da sua infância em terras beirãs e na guerra colonial. O Mário Lino relata a história de muitos estudantes que chegavam das colónias para estudar em Portugal e a sua passagem pela Universidade, que marcaram a sua formação e futuro como homem e cidadão.
A Noémia faz um relato fantástico sobre a sua saída de Portugal, sozinha, com apenas 19 anos, a passagem por Londres, Paris e pela Jugoslávia, onde se junta a um grupo de estudantes latino-americanos. Aí conhece e casa com o jovem pintor chileno Francisco Ariztia que a leva para o Chile de Allende, de onde tem de fugir debaixo da repressão do regime de Pinochet.
A Paula lembra a sua família, os tempos passados em África, a sua chegada a Lisboa para completar o ensino liceal num colégio religioso, e o novo mundo que se lhe abre com a participação na Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa.
O Raimundo prende-nos com a sua vida na clandestinidade, a sua estada em Moscovo, o regresso a Portugal e a actuação da ARA.
Eu, pelo meu lado, faço uma homenagem à minha família, lembrando a perda do meu avô. Recordo os tempos da prisão e o meu compromisso presente com os direitos humanos e os refugiados. 
Este livro que aqui vos apresentamos não é, de maneira nenhuma, um livro saudosista do passado, é um livro de memórias de uma geração que apostou nos valores da liberdade, do progresso, da justiça social, e que continua unida para que não se volte para trás.

2012-11-11

Apresentação de "A FOTO" em Coimbra

No próximo dia 19 de Novembro, segunda-feira, pelas 18h00, realiza~se em Coimbra, na Casa Municipal da Cultura, uma sessão de apresentação do nosso livro.

Os apresentadores serão Manuel Alegre e José Manuel Pureza, o que muito nos honra e sensibiliza e a quem, publicamente, muito agradecemos a disponibilidade manifestada.

Os nossos públicos agradecimentos vão também para a Câmara Municipal de Coimbra, pelo seu apoio à realização desta sessão.

Aqui fica o convite para todos os interessados. Lá vos esperaremos.



2012-10-21

 O nosso livro lá esteve presente no 60º aniversário do Liceu Francês Charles Lepierre, como mostram as fotos aqui juntas. A manifestação artística organizada pelo Liceu e designada " Journée Portes Ouvertes", começou às 14 horas, no sábado passado, com o acesso às exposições artísticas ( Foto 1), projecção da exposição Joana de Vasconcelos e a Literária ( Foto 2,3)
Houve também o lançamento oficial do livro de recordações do Liceu, exposição fotográfica, concerto por dois grupos corais, além de jogos para crianças e de um torneio de futebol de 7, etc...

O nosso livro esteve exposto em 2 salas, ao lado de autores ( antigos alunos ou antigos professores) como Urbano Tavares Rodrigues, Eduarda Dionísio, Baptista Bastos, Isabel Alçada, José Rodrigues Miguéis, Rui Grácio e muitos mais.

Vinte exemplares do livro estavam na banca devido ao esforço da nossa editora a Âncora. Parabéns António Baptista Lopes.


2012-10-09

 
 
A Associação dos Antigos Alunos do Liceu Francês vai organizar dia 20 de Outubro às 19 horas, no 2º andar do edifício antigo do Liceu, uma exposição e venda de livros de autores, antigos alunos.

Fui convidado para lá estar com o nosso livro a FOTO/Reencontro Meio Século depois.
Espero representar com dignidade os outros 7 co-autores.

Jaime Mendes

2012-09-27

Mensagem do António Correia de Campos


Meus caros Zé Gomes de Pina e Mário Lino, 

Li o vosso livro integralmente, numa viagem a Larnaca, Chipre. Gostei imenso e por várias razões:

A proximidade com os meus sonhos, anseios e realizações, muito semelhantes aos vossos, naquelas idades, pelo menos e creio que também agora.

A nossa origem social muito próxima: filhos de professores do ensino primário, de sargento e de pequeno comerciante, afinal a típica classe média em ascensão, na época.

A variedade de experiências de vida e a franqueza quase ingénua com que todos se desvendaram.

O sentido de fraternidade que perdura ainda nas vossas relações actuais.

Tinha o livro em cima da minha mesa quando tive um encontro de trabalho com uma técnica da nossa Representação Permanente que à saída me confessou ser filha do Eng. Rui Martins, também constante da foto, o que prolonga a rede para as gerações seguintes.

A qualidade literária da escrita, que atinge tons novelescos nos depoimentos do Letria e do Narciso, mantendo todos um alto nível, mesmo quando se preocuparam sobretudo com a descrição dos contextos.

Finalmente, a ideia de que a nossa juventude tinha causas e valores.

Como vedes, muitos elementos justificam o mérito da vossa iniciativa. Tenho pena de não conseguir inserir-me em uma semelhante.

Parabéns a todos e todas com natural permissão de circularem esta mensagem a quem entenderem. E obrigado ao Zé Pina pelo livro e dedicatória.

Abraço amigo 

António Correia de Campos